
No Brasil, é impensável falar na questão da reciclagem sem falar nos catadores de lixo. Estima-se que 1 em cada 1.000 brasileiros seja catador. Só em São Paulo, somam-se cerca de 25 mil profissionais, entre carroceiros, catadores e coletores que desviam, diariamente, alguns milhares de quilos de rejeitos dos lixões. A importância deles se torna ainda mais clara quando pensamos que o Brasil produz atualmente cerca de 250 toneladas de lixo diariamente e que esse material, se não reciclado, ficaria se acumulando em aterros, poluindo águas e terras.
Entretanto, embora o papel social e ambiental desses profissionais seja extremamente nobre, o trabalho não vem acompanhado de tamanho glamour. A maioria deles caminha cerca de 30 quilômetros por dia, debaixo de chuva ou sol, puxando até 400 quilos, em busca de materiais que muitas vezes só são encontrados depois de muita busca, em sacos de lixo cheios de rejeitos que podem transmitir doenças ou machucá-los, já que a maioria não usa proteção alguma – seja por falta de dinheiro oi por falta de informação. Além disso, é também comum que sejam confundidos com mendigos ou marginais, ou simplesmente ignorados pela maioria das pessoas. Isso tudo para ganhar não mais do que um ou dois salários mínimos por mês.
O destino da maioria desses materiais “catados” é a reciclagem: os catadores são responsáveis por grande parte da separação e coleta de materiais que a indústria da reciclagem reprocessará. Outro destino desses materiais são as ONGs, cooperativas e associações que produzem artesanato a partir de rejeitos e resíduos, como as que mostramos no penúltimo post.
Mas o mais interessante em meio à realidade dos catadores são algumas histórias quase mágicas, protagonizadas por algumas pessoas que, em meio à sua realidade dura, arranjam inspiração para melhorar a vida de outras pessoas.
Um exemplo disso é a do senhor Severino Manoel de Souza, de 58 anos, que montou uma biblioteca pública em Itapecerica da Serra, São Paulo, que hoje já conta com mais de 15 mil obras. As primeiras foram encontradas em 2001, jogadas no lixo. Embora estivessem roídos por ratos e maltratadas pelo tempo, os cerca de 600 livros que seu Severino resgatou em meio ao esquecimento dos lixões montaram a primeira biblioteca criada por ele, na capital, em um prédio ocupado por movimentos populares de moradia.
Hoje em dia, após divulgação do trabalho do catador, a biblioteca já recebe doações. Severino afirma que os livros são sua paixão, sua “sobremesa à noite”.
Outro exemplo disso é o ex-morador de rua Robson Mendonça. Ele conta que, quando vivia na rua, era privado não só de ter um lar ou uma alimentação digna, mas também do acesso à cultura. As bibliotecas públicas não permitiam que pessoas “sem residência fixa” retirassem livros, e mesmo que ele tentasse lê-lo sentado nas mesas do local, sofria preconceito por parte dos demais freqüentadores. Assim, quando sua situação melhorou, ele resolveu ajudar aos que passavam pela mesma privação. Também com obras encontradas no lixo ou doadas, ele montou a “Bicicloteca”, uma biblioteca sobre rodas. As pessoas, moradores de rua ou não, podem retirar os livros, contanto que se comprometam a devolverem ou, ao menos, doarem para outras pessoas.
Outro protagonista de uma história de tamanha nobreza é o senhor José Luis Zagati. Apaixonado por cinema desde criança, o catador resolveu montar o seu próprio cinema depois de achar uma carcaça de projetor, além de filmes, em meio aos lixões. Assim, nascia o Mine Cine Tupy, que hoje apresenta filmes para crianças que não têm acesso à cultura veiculada nos caros cinemas do país.
Post sugerido por: Cassiane Wigner Brochier – Santa Maria/RS (“A próxima matéria poderia ser sobre as pessoas que vivem e se sustentam através de materiais reciclados. Qual o destino desses materiais, como essas pessoas fazem a diferença, inclusive no mundo da moda, arrecadando matéria-prima.”)
